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Petra: A jornada épica para a Cidade Perdida de Edom

Envolta em lendas e inacessível, a Cidade Perdida de Petra foi redescoberta após anos; trazendo uma experiência diferente dos tempos atuais Há pouco mais de um século, antes da era do turismo de massa e das infraestruturas modernas, a antiga cidade de Petra, na Jordânia, era um enigma envolto em lendas e inacessibilidade. Quando o correspondente Franklin E. Hoskins publicou seu relato na National Geographic em maio de 1907, a “Cidade de Pedra” era um local de desolação majestosa, redescoberto apenas 95 anos antes. A viagem ao coração das montanhas de Edom, onde os edomitas, os nabateus e, posteriormente, os romanos deixaram sua marca, era uma verdadeira jornada no tempo. O que diferenciava a visita de 1907 da experiência atual era a sensação de profundo isolamento. Petra, a antiga capital, havia sido varrida dos mapas ocidentais e da memória do mundo civilizado após o declínio romano e bizantino, por volta do século 7 d.C. Por mais de mil anos, seu local exato permaneceu um segredo guardado pelos beduínos errantes da região. A sua redescoberta, em 1812, pelo explorador suíço Johann Ludwig Burckhardt, que se disfarçou de viajante muçulmano para ganhar acesso, foi apenas o primeiro passo de um lento processo de reinserção no conhecimento ocidental. A expedição de Hoskins e seus contemporâneos, portanto, não era uma simples viagem, mas uma exploração arriscada em território pouco mapeado. Berço histórico Para o explorador do início do século 20, a compreensão de Petra começava pela sua rica tapeçaria histórica, que remonta aos tempos bíblicos. A cidade, originalmente conhecida como Mount Seir, foi o lar dos Edomitas, descendentes de Esaú, e inimigos milenares dos israelitas. A região de Edom foi alvo de algumas das mais duras maldições dos profetas do Antigo Testamento. Contudo, foi sob o domínio dos nabateus — um povo árabe engenhoso — que Petra atingiu seu apogeu. Por volta de 150 a.C. a 106 d.C., Petra floresceu como o ponto nevrálgico do comércio internacional. Era o “Suez” da época, o local onde caravanas da Arábia, Pérsia e Índia descarregavam especiarias, incenso e outras commodities preciosas, distribuídas para a Síria, o Egito e o Mediterrâneo. A geografia da cidade a tornava um “grande cofre seguro” natural. Protegida por montanhas escarpadas e acessível por uma única passagem estreita, ela oferecia segurança inigualável contra os perigos do deserto. A riqueza acumulada pelos nabateus era tão lendária que o primeiro grande monumento que se avista na entrada de Petra é, até hoje, chamado de Al-Khazneh — o Tesouro do Faraó —, uma denominação que ecoa a ideia de um lugar de riqueza fabulosa.
Atravessando o Siq A entrada para Petra, o desfiladeiro de Siq, era e continua sendo o elemento mais dramático da experiência. Hoskins descreveu-o como “a mais impressionante porta de entrada para qualquer cidade em nosso planeta”, um rasgo estreito que bissecava uma montanha de arenito multicolorido. Em 1907, a jornada pelo Siq, que serpenteia por quase três quilômetros (cerca de duas milhas), era uma imersão na natureza bruta. A largura variava de 35 a 40 pés (cerca de 10 a 12 metros) na maioria dos pontos, estreitando-se até apenas 12 pés (cerca de 3,6 metros) nos pontos mais apertados. A altura vertiginosa dos paredões, estimada entre 200 e 1.000 pés (60 a 300 metros) em algumas partes, criava um corredor sombrio e fresco. O explorador observou que, onde as paredes de fato pairavam sobre a estrada, a luz do sol era quase totalmente bloqueada. Fotografar essas porções mais escuras era praticamente impossível com o equipamento da época, o que reforçava a natureza misteriosa e inatingível do local. Para o viajante, o Siq em 1907 era um túnel do tempo. Ao longo daquela garganta escura e fresca, desfilaram as caravanas da antiguidade, reis, rainhas e conquistadores. Hoskins relata ter percorrido o desfiladeiro pela primeira vez “espantado, encantado e deliciado”, notando a ausência total de vida. O que outrora fora um canal de fluxo e comércio incessante, agora estava silencioso e deserto por mais de treze séculos. O Siq não era apenas um caminho; era um monumento em si, um prelúdio glorioso para a cidade oculta. A perfeição esculpida A surpresa atingia seu auge quando o explorador, saindo abruptamente do desfiladeiro estreito, era lançado de volta à luz do sol e via o Tesouro pela primeira vez. Esculpido na face do penhasco, semi-oculto nas sombras em crescimento ou banhado pelo sol da manhã, o Al-Khazneh era um espetáculo “quase avassalador em seu efeito”. A descrição de Hoskins realça a assombrosa perfeição da fachada: ela parecia ter saído do cinzel do escultor “mil e quinhentos ou dois mil anos atrás” e ainda se mantinha quase intacta. O arquiteto nabateu que o concebeu harmonizou sua obra com o ambiente natural. Flanqueada por falésias imponentes e abordada pelo misterioso desfiladeiro, a estrutura não dependia apenas da sua escala (que impressionava em largura e altura), mas da sua integração com o cenário circundante. Contudo, para os viajantes do século passado, o maior fascínio era a cor. Descrever os tons de arenito era um desafio. Hoskins tentou: Para retratar a coloração maravilhosa dessas massas de arenito e dar uma visão correta dessa característica única de Petra é algo que tentamos com receio… Desde o momento em que avistamos a grande massa de castelo em que a cidade está escondida, até o último vislumbre das terras altas, nunca paramos de nos maravilhar com as belezas indescritíveis dos púrpuras, amarelos, carmesins e as combinações de muitas cores.” As cores, que pareciam se acender como “chamas coloridas” sob o sol brilhante do deserto, eram comparadas a seda adamascada ou à plumagem de certos pássaros. Essa paleta vibrante, combinada com a habilidade dos escultores nabateus, que fixavam os níveis de suas tumbas e templos para fazer o uso mais artístico da coloração natural, tornava Petra diferente de qualquer outro sítio arqueológico. Para além do tesouro Após o Tesouro, a expedição prosseguia para o coração da cidade. O que se encontrava era um vasto complexo de templos, tumbas, moradias e um teatro, todos escavados na rocha. A área estava repleta de ruínas, testemunhando a sucessão de civilizações: semitas, gregas, romanas, cristãs e muçulmanas. O explorador do início do século 20 encontrava a cidade em estado de desolação. Tempestades, inundações, terremotos e a intervenção humana (o “pobre punho do árabe bajulador”, como Hoskins poeticamente se referiu aos saques) haviam causado danos, mas o núcleo de Petra permanecia. A vastidão dos monumentos, incluindo o enorme Dier, ou Mosteiro, situado no alto de um penhasco, exigia longas e árduas escaladas. A visão do Mosteiro, com figuras minúsculas na porta de 30 pés (9 metros) de altura, e uma única figura no topo do zimbório, 100 pés (30 metros) acima, transmitia a escala monumental da engenharia nabateia. Em suma, visitar Petra há mais de 100 anos era uma experiência muito mais física e psicologicamente intensa. Não se tratava apenas de admirar ruínas, mas de entrar em um santuário de silêncio, onde a história de milhares de anos — de Edomitas a Romanos — era contada não por guias, mas pelos paredões coloridos e pelas fachadas perfeitamente preservadas. A conclusão era unânime entre os exploradores da época: “a metade jamais foi contada” sobre o efeito imortal da Cidade de Pedra. Por Fabio Previdelli

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